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TagsSociology Economics
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O FENÔMENO URBANO

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GEORG SIMMEL

ROBERT E. PARK

MAX WEBER

LOUIS WIRTH

P. H. CHOMBART DE LAUWE

O FENÔMENO URBANO

Organização e Introdução de
OTÁVIO GUILHERME VELHO

1967
Rio de Janeiro

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industriais” da Ásia e da Rússia. Teríamos que acrescentar como outra característica certa

“diversidade” de ocupações industriais. Porém, nem mesmo com isso teríamos uma

caracterização decisiva. Uma cidade pode fundar-se de dois modos. Seja, a) existindo

previamente algum domínio territorial ou, sobretudo, uma sede de principado como centro

de um lugar em que exista uma indústria em regime de especialização, para satisfazer suas

necessidades econômicas ou políticas, e onde, por isso, se comerciem mercadorias. Porém,

um oikos senhorial ou principesco, com um estabelecimento de artesãos e comerciantes

submetidos a serviços obrigatórios e a tributos, mesmo grande, não pode ser denominado

de cidade, apesar de que historicamente uma grande quantidade de cidades muito

importantes surgiu de tais estabelecimentos e a produção para a corte do príncipe constituiu

para muitas delas (“cidades principescas”) uma fonte de rendas muito importante, se não a

mais importante com que contavam seus habitantes. Outra característica que se teria que

acrescentar para poder falar de “cidade” seria a existência de um intercâmbio regular e não

ocasional de mercadorias na localidade, como elemento essencial da atividade lucrativa e

do abastecimento de seus habitantes, portanto um mercado. Porém, não é qualquer mercado

que transforma a localidade na qual ele existe em “cidade”. Mercados periódicos e feiras

anuais, nos quais em épocas determinadas se encontravam comerciantes de regiões

distantes para trocar entre si suas mercadorias, ou colocá-las diretamente em mãos do

consumidor, tinham lugar freqüentemente em locais que hoje reconhecemos serem

“aldeias”. Falaremos de “cidade” no sentidoeconômico quando a população local satisfaz

uma parte economicamente essencial de sua demanda diária no mercado local e, outra parte

essencial também, mediante produtos que os habitantes da localidade e a povoação dos

arredores produzem ou adquirem piara colocá-los no mercado. Toda cidade no sentido que

aqui damos a essa palavra é um “local de mercado”, quer dizer, conta como centro

econômico do estabelecimento com um mercado local e no qual em virtude de uma

especialização permanente da produção econômica, também a população não-urbana se

abastece de produtos industriais ou de artigos de comércio ou de ambos e, como é natural,

os habitantes da cidade trocam os produtos especiais de suas economias respectivas e

satisfazem desse modo suas necessidades. É normal que a cidade, tão logo se apresenta com

uma estrutura diferente do campo, seja por sua vez sede de um senhor, ou de um príncipe, e

lugar de mercado, ou possua centros econômicos de ambas as espécies — oikos e mercado

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—, e também é freqüente que tenham lugar periodicamente na localidade, além do mercado

local regular, feiras de comerciantes em trânsito. Porém a cidade — no sentido que usamos

o vocábulo aqui — é um estabelecimento de mercado.

A existência do mercado repousa, freqüentemente, numa concessão ou garantia de

proteção do senhor do domínio ou do príncipe, o qual tem interesse, por um lado, na oferta

regular de artigos mercantis e de produtos industriais estrangeiros que lhe oferece a feira,

direitos alfandegários, direitos de escolta e proteção, direitos de mercado, de justiça etc....

que geralmente traz consigo e, por outro lado, no estabelecimento local de industriais e

comerciantes que possam pagar impostos, e, na medida em que o mercado traz consigo um

estabelecimento geral, também espera tirar lucros com as rendas do solo.

Essas probabilidades têm tanto maior importância para ele na medida em que se trata de

rendas monetárias que aumentam seu tesouro de metais preciosos. Pode ocorrer que uma

cidade careça desse apoio, até mesmo espacial, numa se de senhorial ou principesca e que

se localize num determinado local em virtude da concessão de um senhor ou príncipe que

não resida na localidade, ou que nasça por usurpação dos interessados como um

estabelecimento de mercado. Ou também se pode outorgar uma concessão a um

empreendedor para que estabeleça um mercado e habitantes neste local. Esse fenômeno era

bastante freqüente na Idade Média, especialmente na Europa nórdica, oriental e central, nas

zonas onde se fundaram cidades, e se apresenta também ao longo de toda a história, e do

planeta, ainda que não seja o normal. Porém a cidade podia nascer também; b) sem esse

apoio na corte do príncipe ou da concessão do príncipe, mediante a reunião de intrusos,

piratas ou comerciantes colonizadores ou nativos, dedicados ao comércio intermediário, e

esse fenômeno foi bastante freqüente nas costas mediterrâneas nos primeiros tempos da

Antiguidade e também, por vezes, nos primeiros tempos da Idade Média. Tal cidade podia

ser um puro local de mercado. Porém, de qualquer maneira, era mais freqüente a existência

de grandes propriedades patrimoniais, senhoriais ou de príncipes, de um lado, e o mercado,

de outro. A corte senhorial ou do príncipe, como ponto de apoio da cidade, podia cobrir

suas necessidades pela via mais comum da economia natural, mediante serviços

obrigatórios e tributos em espécie dos artesãos ou comerciantes dependentes dela, ou podia

fazê-lo pela troca no mercado urbano, como seu cliente de maior capacidade aquisitiva.

Quanto mais dominasse esse último aspecto, tanto mais sobressaía a base de mercado da

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