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Page 2

o passado, modos de usar.
História, memória e política.

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Introdução - A emergência da memória 9

I - História e memória: uma dupla antinómica? 21
Rememorafão 21
Jeparaf'ÕeJ 29
Empatia 38

11 - O tempo e a força
Tempo histórico e tempo da memória
((Memórias fortes) e «memórias fracaJ)

111 - O historiador entre juiz e escritor
Memóna e eJI.Tita da hútória
~ érdade e jUJtifu

IV - Usos políticos do passado
A memória da Jhoah como ((religião ávih)
O edipxe da memória do (,'l)munúmo

V - Os dilemas dos historiadores alemães
O deJapareámellto dofasciJ'mo
Li Shoah, a RDA e o ant[fascúmo

VI - Revisão e revisionismo
MetamotjiueJ de um mnceito
A palavra e a roisa

Nota bibliográfica e agradecimentos

Notas

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55
71

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89

100

109
109
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escreve em conclusão da sua obra, reside precisamente

nessa impossibilidade de testemunhar. Segundo Agam-

ben, ~-\uschwitz é «o que é impossível de testemunhar»

e os sobreviventes dos campos da morte, ao tomarem a

palavra no lugar do «muçulmanm), aquele que não pode

falar, não são mais do que testemunhas dessa impos-

sibilidade do testemunh02r,. Aos seus olhos, o núcleo

profundo de Auschwitz não se encontra no externúnio,

mas na produção do «muçulmano», essa figura híbri-

da entre a vida e a morte (non-uomo)27. É por isso que

ele a transforma num ícone (tomando como pretexto

a modéstia de que faz prova Primo Levi quando indica

os limites do seu próprio testemunho). Mas essa visào

dos campos nazis como lugares de dominação biopoli-

tica sobre os detidos reduzidos à «vida nmm (nuda llida)

carece singularmente de espessura histórica. Agamben

parece esquecer que a grande maioria dos judeus ex-

terminados nos campos nazis não eram «muçulmanos»,

uma vez que não eram enviados para a câmara de gás

no final das suas forças mas no próprio dia em que

chegavam ao camp02H. Se Agamben pôde negligenciar

um facto tão evidente, é precisamente porque isso não

constitui, a seu ver, o cerne do problema. Toda a sua ar-

gwnentação parte do postulado segundo o qual a prova

de Auschwitz não reside no fado do extermínio - uma

verdade que se encontra desqualificada na sua perspec-

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tiva pelo hiato que separa o acontecimento da sua com-

preensão - mas na impossibilidade da sua enunciação,

incarnada pelo «muçulmano». Se ~-\uschwitz existiu, não

foi tanto porque existiram câmaras de gás, mas porque

os sobreviventes puderam restituir uma voz ao «mu-

çulmano», a «testemunha integrab>, arrancando-o do

seu silêncio. ~lais wna vez, a história é reduzida a uma

~_st:~Ç~? linguísti~a de._q~~, a .meITl0ria - dissociada

do real - consti,tul a tra~a. Fundar a crítica do nega-

cionismo numa tal ~~.~~~í_sica da linguagel1~ (de inspi-

f'Ação tanto existencialista como estruturalista2')) é uma

operação duvidosa que corre o risco de manter intacta

a «aporia» de Auschwitz, ao mesmo tempo que retira

à sua verdade a sua base material. Podemos também

compreender o desconforto com que os sobreviven-

tes de ~\uschwitz, as testemunhas realmente existentes,

acolheram C'e qui rufe de AUJ'chwitZ' Philippe Mesnard c

Claudine Kahan sublinharam justamente esse aspecto

do problema na conclusão da sua crítica: K.,\ escuta da-

quilo que podem dizer os sobreviventes, como podem

dizê-lo, dá lugar [no livro de AgambenJ a uma glosa so-

bre o silêncio que lhes é assim imposto. No lugar deste,

Agamben apresenta o muçulmano, a única testemunha

que vale a seus olhos, um ser sem referência - a partir

do qual Agamben pode precisamente construir a sua

própria referência -, abandonado pela identidade, cuja

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existência se reduz ao espaço que na linguagem ocupa a

sua imagem quase transparente.»)31J

Verdade e Justiça

N a relação complexa que a história estabelece com a

memória inscreve-se o vínculo que as duas mantêm

com as noções de Vé;dade e de justlça>Este vínculo

torna-se hoje cada vez mais problemático com a ten-

dência crescente para uma leitura judiciária da história

e uma «judiciarização da memória) 'I. Doravante no
centro da nossa consciência histórica, a visão do século

x..X como um século de violência conduziu frequente-

mente a historiografia a trabalhar com categorias ana-

líticas tomadas do direito penal. Os actores da história

são, assim, cada vez mais frequentemente colocados

no papel de executores, vítimas e testemunhas 31• Os

exemplos mais conhecidos que ilustram essa tendência

são os de Daniel J. Goldhagen e de Stéphane Courtois.
O primeiro interpretou a história da Alemanha moder-

na como um processo de construção de uma comuni-

dade de executores". O segundo, ao trocar as vestes

do historiador pelas do procurador, reduziu a história

do comunismo ao desenvolvimento de uma operação

cnmtnosa para a qual reclama um novo processo de
-~N·~·;~~b~-;ga.1-1.

100

No fundo, a relação entre justiça e história é uma ve-

lha questão (veja-se a intervenção dos mais eminentes

historiadores durante o processo de Zola, em 1898-' -'),

que hoje volta à ordem do dia por uma série de pro-

cessos no decurso dos quais numerosos historiadores

foram convocados na qualidade de testemunhas. Seria

difícil compreender os processos Barhic, Touvier c Pa··

pon em França, o processo Priebke em Itália ou ainda

as tentativas de instrução de um processo a Pinochet,

tanto na Europa como no Chile, sem os relacionar com

a emergência, no seio da sociedade civil desses países e

na opinião pública mundial, de uma memória colectiva 1:
~--- --.------_. __ .-----_. __ .,._------------".- .. ,,- "--._,
do fascismo, das ditaduras e da Shoah. Esses p~õcessos- .' '

foram momentos de rememoração pública da história

onde o passado foi reconstituído e julgado numa sala

de tribunaL No decorrer das audiências, os historia-

dores foram convocados para «testemunham, ou seja,

para clarificar graças às suas competências o contexto

histórico dos factos em julgamento. Diante do tribunal,

os historiadores prestaram juramento declarando como

qualquer testemunha: (~uro dizer a verdade, somente a

verdade e nada mais que a verdade.w'() Esse «testemu-

nhm) J"tIÚ genen:r colocava evidentemente questões de

ordem ética, mas também retomava questões mais anti-

gas de ordem epistemológica. Punha em causa a relação

da justiça com a memória de um país e a do juiz com

101

Page 97

19. Wehler, Hans-Ulrich (1988), l-;nlsorgllttJ!, der deul.rcben Ver-
.~at{v,e1tbeit? Ein polemischer I-:Jsqy zum (His/orik.erslreit)), Munique:
Bcck.

20.1·'riedliinder (1993), «A ConAiet af Mcrnorics ? Thc Ncw
Gcrman Debate about thc "Final Solution"», o/J. ci/., pp. 33-34.
21. Para uma visão de conjunto da obra de Renzo De Fc-
!ice na historiografia italiana do fascismo, cf. Santomassino,
Gianpasqualc, «li rualo di Rcnzo De Fclicc}), em Colloti (ed.)
(2000), ,p.dl., pr. 415-429.
22. De Fclicc (1995), op. cito
Z3. Cf. sobretudo Paxton, Robcrt J. (1997), 111 France de r /id!y,
Paris: Seui!.

_':i..) 24" ~abcrm~s (1987), «De l'usagc publiç de l'histoirc», t.a7tJ
r <. po/dlque, 0f>' ClI. (trad. r.), pr. 247-260.

25. Furet (1995), op. cito Retomo a critica de Bcosrud (1999), oj>. cito

26. Pavonc, Claudio (1990), Una guerra cil'lle. Sl'{l!:l;io slIlla nlorah'-
tà della Resútenza, Turim: Bollaci Boringhieri.

27. A respeito de Irving, cf. Evans, Richard J. (2002), Telh'ng
lies abOli! Hitler. Tbe Holocaust, l-listoIJ' a/ld !be David lrving Táal,
Londres: Verso; a respeito de Bernard J. Lewis, que considera
o genocídio dos arménios <mma visão arménia da história»,
cf. Ternon, Yvcs (1994), «Lettre ouverte à Bernard Lcwis et
à quelques autrcs», em Davis, Leslie 'A. (1994), J A Pr()/'ince de
la morto /lrc/lil!eJ (/tlIéricaine.r ronrernan! !e iÚlOcide des AmJéniem,
Bruxelas: Complexe, pp. 9-26.

28. Pomian, Krzysztof (2002), «Storia uff1cialc, storia rcvisio-
nista, storia critica», Alappe dei Not'emlto, Milão: Bruno Monda-
don, pr. 143-150.

194

Outros títulos das edições unipop:

QllelJ} canta o Estado-ilação?

Judith Butler e Gayatri Spivak

(Fevereiro de 2012)

o direito de fuga
Sandro Mezzadra

Ca publicar)

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