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N.Cham.

Título: Por uma história política .

COLEÇÃO RESERVA
- (Não Emprestado)

248 1488
64664

N" Pat. :73053

Page 2

I .

René Rémond
ORGANIZADOR

POR UMA HISTÓRIA POLÍTICA

2º edicão ,

Dora Rocha
TRADUÇÃO

'..r'" FGV
EDITORA

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220 POR UMA HISTÓRIA POLÍTICA

mações novas, por exemplo, sobre Le Temps, Les Déhats,
L' Époque ou Le Temps de Paris de 1956.1x Garanto que uma
monografia consagrada sob esse aspecto ao desafortunado
J' informe, de Joseph Fontanet (1977), poderia ter grande
interessse. E o projeto vale também para as rádios privadas
- as emissoras "periféricas" antigas e as rádios locais de
freqüência modulada dos anos 1980. No que diz respeito à
mídia audiovisual de "serviço público", nesse mesmo capí-
tulo, que podemos chamar de anatómico, é o organograma
jurídico e político dos canais de influência do Estado que
ocupa uma posição equivalente. 19

A segunda abordagem corresponde a uma visão mais fi-
siológica das coisas: con.-;iste em ver, em casos precisos, como
funcionam as influências - nascimento, vida e morte dos
programas, nomeação e afastamento dos diretores, e também
esses incidentes diversos que fazem a máquina ranger e revelar
suas engrenagens. No caso da televisão, o exemplo da famosa
série "Cinq colonnes à la Une", sobre a guerra da Argélia,

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poderia ser cotejado com muitos outros. "La caméra explore
le temps", programa cuja suspensão causou tanto rebuliço em
1965, também seria um caso rico de ensinamentos. O que é
preciso descrever, em suma, é a decisão na imprensa escrita
e no rádio-televisão. A imbricação dos fios e a incerteza das
pistas explicam (mas não são um consolo) que os historia-
dores do político até o momento não se tenham preocupado
muito com isso. Como a finalidade deste livro também é
estimular novos apetites, fica aqui a sugestão.

E aqui é também o lugar de dizer que a novidade intro-
duzida em 1982 pelos socialistas no poder merece uma atenção
específica: falo da Haute Autorité, instância independente que
fez os "sábios" entrarem no jogo ("sofiocracia"?), e que foi
encarregada, em resumo, de colocar o rádio e a televisão
públicos a serviço da nação inteira e não de um governo ou

A MÍDIA 221

de uma maioria- sempre passageiros, na democracia. Concre-
tamente, pretendia-se criar uma verdadeira separação entre os
poderes públicos e as direções, não apenas para servir à moral
democrática, mas, mais amplamente, para assegurar às empre-
sas envolvidas a dignidade necessária à sua plena eficácia tanto
no tocante aos programas quanto aos noticiários. Como essa
instituição foi trucidada em 1986, após a volta da direita ao
poder, sua história completa pode e deve ser escrita, com um
balanço e uma interpretação de seus sucessos e seus fracassos.
No momento dispomos apenas de testemunhos subjetivos,21

matéria-prima, entre outras, para as sínteses futuras que cer-
tamente esclarecerão, pois tratava-se de um lugar central, várias
das questões de método e de fundo que são evocadas aqui.

Por mais insuficientes que sejam em número, as pesquisas
disponíveis em todo caso demonstram com ênfase, exatamen-
te quando acompanham a pergunta linear que eu fazia no
começo, que essa pergunta é na realidade muito empobrece-
dora e enganosa: pois tudo é muito mais complicado que a
simples relação de intervenientes ativos esforçando-se para
impor sua influência a sujeitos mais ou menos passivos.

Assim é que existe uma influência específica do rádio, e
sobretudo da televisão, na vida política, influência na qual nem
sempre se pensa, pois ela escapa ao mesmo tempo ao imediato
e ao intencional: é aquela que o poder dos microfones e das
câmeras exerce sobre os modos de expressão dos atores. A
eloqüência dos políticos foi certamente modificada por isso -
a forma, a expressão, o vocabulário e a sintaxe, 2c e talvez
também seu gestual, sua maneira de se vestir e de se mover ...

Talvez se diga que isso escapa à vontade explícita dos pro-
fissionais dos meios de comunicação. Mas quando voltamos à
crônica do cotidiano, é para constatar que àí também, no quadro
das influências, as setas estão voltadas em todas as direções.

Não ratifico uma visão demasiado desencarnada das re-

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POR UMA HISTÓRIA POLÍTICA

lações da imprensa com os poderes, essa visão da qual um
Philippe Simonnot, durante algum tempo jornalista do Le
Monde (e levado por sua especialização de economista?)
tornou-se o mais eficaz defensor: 23 a de um universal do ut
des, de um jogo de trocas congelado, em que cada um dos
protagonistas calcularia cientificamente os valores trocados
e o conteúdo da permuta. Nada mais estranho à vida real
que essa interpretação abstrata que não leva em considera-
ção as paixões, os impulsos, as motivações morais, até
mesmo os desinteresses, e que, propriamente falando,
desencarna.

E no entanto, a pista é boa. Ela vem lembrar o interesse
da sociologia política de um meio.

Antes de tudo do lado de dentro, onde é preciso organizar
uma prosopografia dos jornalistas e dos dirigentes da impren-
sa. Por mais contaminados por um espírito de sistema que às
vezes pareçam ao historiador, os trabalhos da escola de Pierre
Bourdieu (refiro-me em particular a diversos números das
Actes en Sciences Sociales) colocam boas perguntas e pro-
põem algumas respostas provisórias mas estimulantes. A
história política dos meios de comunicação deve enriquecer-
se com um estudo da "socialização" dos homens, da formação
de suas opiniões ao longo de seu itinerário particular. 24 Ela
deve dedicar especial atenção às gerações unidas pelas mes-
mas lembranças, que acarretam (freqüentemente, mas nem
sempre ... ) solidariedades instintivas.

É preciso em seguida sair do microcosmo das diversas
redações e apreender o meio em seu conjunto, considerar os
vínculos que as unem, opondo-as - na duração de carreiras
profissionais que freqüentemente daí em diante se fazem em
ziguezague entre as diversas categorias da imprensa escrita,
falada ou por imagens.

É preciso sobretudo prestar atenção aos vínculos múltiplos

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que aproximam os atores da mídia de todos os outros. Em
Les intellocrates, Hamon et Rotman levantaram de uma
maneira divertida o mapa dos restaurantes da rive gauche
onde se encontravam com mais facilidade os espécimes
humanos que estavam estudando. Valeria a pena desenvolver
a idéia para o nosso tema, que é vizinho do deles. A Brasserie
Lipp praticamente só foi estudada sob o ângulo anedótico: ela
mereceria, sob a luz da nossa curiosidade particular, uma tese
acadêmica e bem-humorada. Os clubes têm menos importân-
cia na França que na Inglaterra. Mas a lista dos jornalistas
membros do Siecle, onde, uma vez por mês, eles encontram
uma amostragem bastante nítida dos meios dirigentes, mere-
ceria com certeza ser considerada. Imaginemos a que ponto
seria picante saber com quem almoçaram os 50 principais
jornalistas de Paris durante um ano, de década a década, desde
o início da Terceira República!

Estas observações referem-se ao conjunto dos produtores
da informação. Mas o estudo do produto tampouco deve ser
esquecido. Existe um processo de elaboração, de difusão,
depois de extinção da informação que só pode ser percebido
eficazmente, num primeiro momento pelo menos, pela mono-
grafia. A cada dia os meios de comunicação se recopiam em
círculo segundo um processo freqüentemente assinalado. E
seria preciso multiplicar as análises de notícias particulares,
que têm todas seu ritmo próprio, sua vida e sua morte, e que
só se explicam uma em relação às outras.

Uma das fontes desse processo é sem dúvida a agência de
notícias. 25 No caso francês, o papel da Havas e depois de sua
filha, a AFP, é essencial, fornecendo um terreno propício a
tudo que floresce e cresce ao ar livre.

Por toda parte, sei bem disso, a dificuldade é fugir do particu-
lar e captar - com a intuição e as estatísticas misturando-se,
como sempre- a totalidade de um conjunto. E parece-me que

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450 POR UMA HISTÓRIA POLÍTICA

literatura, seu cinema e sua cozinha. Sua relação com a
:·/-política revela-o, da mesma forma que seus outros compor-

. tamentos coletivos. Assim, na França, uma participação re-
lativamente elevada nas consultas eleitorais, a fraca adesão
às máquinas políticas, a desconfiança em relação aos partidos,
um antiparlamentarismo latente, uma animosidade surda
contra a classe política, uma aspiração intermitente a um
governo forte mas a rejeição de toda autoridade que não
procede da livre escolha dos cidadãos, as divisões incessan-
temente renascentes mas também o desejo de uma união que
transcenda os desentendimentos, compõem uma mistura ori-
ginal que traz a marca de uma longa história política: o apego
à eleição não é herança de uma prática quase ininterrupta do
voto há quase um século e meio, que faz da França uma
exceção na Europa? O que se chama às vezes de cultura
política, e que resume a singularidade do comportamento de
um povo, não é um elemento entre outros da paisagem
política; é um poderoso revelador do ethos de uma nação e

do gênio de um povo.

Biografias _____________ _

René Rémond, nascido em 1918, professor da Université de Paris-

X-Nanterre e do Institui d'Études Politiques. Presidiu a Université de

Nanterre. Preside a Fondation Nationale des Sciences Politiques. Reali-

zou e dirigiu pesquisas sobre a história política, religiosa e intelectual

da França contemporânea.

.Jean-Pierre Azéma, nascido em 1937, professor agrcgé de histó-

ria, doutor, maftrc de confércnce no Institui d'Études Politiques de Pa-

ris. Publicou diversas obras sobre a França contemporânea; especialista

no período da Segunda Guerra Mundial.

.Jean-Jacques Becker, nascido em 1928, professor agrégé de his-

tória, doutor, é professor de história contemporânea da Université de

Paris-X-Nanterre. Especialista em opinião pública, dedicou sua tese

à análise da opinião pública francesa no início da Primeira Guerra

Mundial.

Scrge Berstein, nascido em 1934, professor agrégé de história, dou-

tor, especialista em história política, professor de história contemporâ-

nea no Institut d'Études Politiques de Paris. Defendeu tese sobre o Par-

tido Radical no período entre as Juas guerras.

Aline Coutrot. 1926-1987, foi maftrc de confércncc no Institui

d'Études Politiques de Paris, especialista em história contemporânea da

Igreja e dos movimentos da juventude cristã. Antes disso fora militante

e chefe bandeirante. comissária internacional dos Cuides de Francc e

membro do Comitê Mundial de 1963 a 1972, encarregada especialmen-

te da promoção desse movimento nos países em desenvolvimento.

eduardoreisdeoliveira
Highlight

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Highlight

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Highlight

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452 POR UMA HIST<)RIA POLÍTICA

Jean-Noel Jeanneney, nascido em 1942, formado pela Écolc Nonnale

Supérieure, professor agrégé de história, doutor, é professor do Institui

d 'Études Politiques. Foi presidente-diretor geral da Radio France e Radio

France Intemationale de 1982 a 1986 e foi nomeado em maio de 1988

presidente da Missão do Bicentenário da Revolução Francesa. É autor de

uma dezena de obras sobre a história política da França, a influência dos

meios empresariais e a história dos meios de comunicação.

Philippe Levillain, nascido em 1940, ex-aluno da ENS de Ulm,

doutor, é professor da Université de Paris-X-Nanterre. Especialista em

relações entre política e religião de 1870 aos nossos dias, consagrou sua

tese de doutorado de Estado a uma biografia de Albert de Mun.

Pierre Milza, nascido em 1932, doutor, professor do Institui d' Études

Politiques, especialista em Itália contemporânea, em relações internacio-

nais e em fascismo, dirige o Centre d'Histoire de l'Europe du xxc Siecle
da Fondation Nationale des Sciences Politiques.

Antoine Prost, nascido em 1934, professor da Université de Paris-I

e do Institui d'Études Politiques de Paris. Tese sobre os ex-combaten-

tes. Autor de várias obras sobre o ensino e a educação.

Jean-Pierre Rioux, nascido em 1939, é diretor de pesquisa no CNRS

(Institui d'Histoire du Temps Présent) e rcdator-chefe de Vingtieme Siecle.

Revue d' Histoire. Seus trabalhos versam sobre a história política cultural

da França contemporânea. Publicou entre outras uma história da França

durante a Quarta República. É membro dos comitês de redação de

L' Histoirc e do Mou1·emcnt Social e assina uma crônica no jornal Lc Monde.

Jean-François Sirinelli, nascido em 1949, professor de história

contemporâneana da Université de Lille-III. Autor de uma tese sobre a

história da geração dos alunos dos liceus que se preparam para ingressar

na École Normale Supérieure e dos prôprins alunos da ENS, de Sartre e

Aron, consagra suas pesquisas à história política e sociocultural da França

DO POLÍTICO 453

no século XX, especialmente à história dos intelectuais. Prepara um

estudo sobre os grandes abaixo-assinados e, em co-direção com Éric

Vigne, uma história das direitas na França a partir de 1815.

Michel Winock, nascido em 1937, professor agrégé de história,

doutor. Autor de várias obras sobre a França dos séculos XIX e XX.

Ensina história das idéias no Institui d'Études Politiques de Paris.

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