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TRATADO SOBRE OS PRINCIPIOS DO CONHECIMENTO HUMANO
GEORGE BERKELEY – Tradução Antonio Sérgio – Coleção “Os Pensadores” 1973

Introdução

1. Não sendo a filosofia senão o desejo da sabedoria e da verdade, é de esperar dos que
nela gastaram o melhor do seu tempo e do seu trabalho que fruam de maior calma e
serenidade espiritual, maior clareza e evidência de conhecimento, e sejam menos
assediados por dificuldades e dúvidas do que os outros homens. Apesar disso, vemos o
grosso iletrado da humanidade percorrer o trilho do simples senso comum, governado por
ditames da natureza, com facilidade e sem perturbação. Nada do que é familiar lhes
parece inexplicável ou duro de entender. Não se queixam de falta de evidência nos
sentidos, e o perigo do ceticismo não os ameaça. Mas apenas saímos dos sentidos e do
instinto para a luz de um princípio superior, para meditar, pensar e refletir na natureza das
coisas, mil escrúpulos surgem no espírito sobre o que antes parecia compreendermos
claramente. De toda a parte se nos levantam preconceitos, e erros dos sentidos; e, ao
tratar corrigi-los pela razão, insensivelmente caímos em singulares paradoxos, dificuldades,
inconsistências, que se multiplicam ao progredir na especulação, até que depois de ter
percorrido verdadeiros labirintos nos achamos onde estávamos; ou, o que é pior,
entregues a um mísero ceticismo.

2. Dá-se como causa disto a obscuridade das coisas ou a natural fraqueza e imperfeição do
nosso conhecer. Diz-se que as nossas faculdades são poucas, dadas pela natureza para
conservação e comodidade da vida, não para penetrar a essência e constituição das coisas.
Demais, quando o espírito finito do homem quer ocupar-se do que participa da infinidade,
não admira vê-lo cair em absurdos e contradições de que não consegue desenredar-se,
por ser da natureza do infinito a sua incompreensibilidade pelo finito.

3. Mas talvez sejamos injustos conosco situando o defeito originariamente nas nossas
faculdades e não no mau uso delas.. É difícil aceitar que deduções corretas de princípios
verdadeiros aportem a conseqüências inaceitáveis ou inconsistentes. Devemos crer que
Deus foi mais liberal com os homens, e não lhes deu um forte desejo de conhecimento
colocado fora do seu alcance. Isto opor-se-ia ao método indulgente da Providência, que a
todos os apetites inspirados às suas criaturas forneceu ordinariamente meios - se
justamente utilizados - de poder satisfazê-los. Além disso parece-me que a maior parte, se
não todas as dificuldades que até agora detiveram os filósofos e barraram o caminho do
conhecimento, nós as provocamos, levantando a poeira e depois queixando-nos de não
ver.

4. Tentarei pois, descobrir os princípios introdutores desta dúvida e incerteza, destes
absurdos e contradições em várias escolas de filosofia, a ponto de os homens mais sábios
terem julgado incurável a nossa ignorância, como fruto natural da fraqueza e limitação das
nossas faculdades. Decerto vale bem a pena inquirir estritamente dos primeiros princípios
do conhecimento humano, em especial se há motivo de suspeitar que as barreiras e
dificuldades encontradas pelo espírito na busca da verdade não resultam de obscuridade e

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complexidade do objeto ou natural defeito de c compreensão; tanto quanto de falsos
princípios em que se tem insistido e devem rejeitar-se.

5. Bem parece tarefa difícil e desanimadora, se pensar quantos homens grandes e
extraordinários me precederam nela; mas tenho alguma esperança considerando que nem
sempre as vistas largas são as mais claras, e que um míope, obrigado a colocar o objeto
mais perto, pode talvez por um exame próximo descobrir o que não viram muito melhores
olhos.

6. Para preparar o leitor a mais fácil inteligência do que se segue, convém pôr como
introdução alguma coisa sobre a natureza e o abuso da linguagem. Mas o deslindar deste
tema de certo modo antecipa o meu plano, por tratar-se do que parece ter sido origem
principal da dúvida e complexidade da especulação como de erros e dificuldades inúmeras
em quase todos os domínios do conhecimento. E foi a opinião de que o espírito pode
construir idéias abstratas ou noções de coisas. Quem não for de todo alheio a obras e
discussões de filósofos reconhecerá que não pequena parte delas se trava acerca de idéias
abstratas. Elas passam especialmente por objeto das ciências denominadas Lógica e
Metafísica e de quanto se tem pelo mais abstrato e sublime estudo, onde entretanto raro
se encontra uma questão posta de modo que não suponha a sua existência no espírito e
que isso é bem conforme com elas.

7. Está assente que as qualidades ou modos das coisas nunca existem realmente cada uma
por si e em separado, mas em conjunto, várias no mesmo objeto. Mas, como dissemos, o
espírito é capaz de considerar cada uma separada ou abstraída das outras a que está
ligada, formando assim idéias abstratas. Por exemplo, a vista apreende um objeto extenso,
colorido, móvel; esta idéia compósita resolve-a o espírito nos seus elementos e isolando
cada um forma as idéias abstratas de extensão, cor, movimento. Não podem cor e
movimento existir sem extensão; mas o espírito pode formar por abstração a idéia de cor,
excluindo a extensão, e a de movimento, excluindo as outras duas.

8. Depois, tendo observado nas extensões sensíveis particulares algo semelhante e comum
e algo peculiar como a forma ou a grandeza que as distinguem, considera à parte o que é
comum formando a idéia muito mais abstrata de extensão que não é linha, superfície ou
volume nem forma ou grandeza mas uma idéia abstraída de todas elas. De igual modo,
pospondo cores particulares sensíveis e distintas e conservando apenas o que lhes é
comum, o espírito faz idéia da cor em abstrato, que não é vermelha, azul, branca ou
qualquer cor determinada. Por idêntico processo, abstraindo o movimento não só do
corpo móvel mas da trajetória, e de toda velocidade ou direção particular, forma a idéia
abstrata de movimento, correspondente a qualquer espécie de movimento particular
sensível.

9. E, assim como forma idéias abstratas de qualidades ou modos, o espírito, pela mesma
separação mental, forma idéias abstratas de seres mais complexos que abrangem várias
qualidades coexistentes. Por exemplo, tendo observado em Pedro, Jaime e João certas
semelhanças de estatura e outras qualidades, põe de parte na idéia complexa ou

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